Sem tempo para ter pressa
Ilustração
na parede da minha sala, batia um velho relógio, Tic. Tac. Tic. Tac. Sempre do mesmo jeito, sempre no mesmo compasso. Até que, certa tarde, nossos lábios se encontraram. E o tempo, danado, esticou seu pescoço para nos espiar Nos nossos rostos tinha tudo que o tempo não compreendia Pressa nenhuma O que não fosse apressado e fugaz, ele não entendia. Por um instante os ponteiros hesitaram O tique-taque foi substituído por um tremor ensurdecedor Até vir o silêncio Parou. Ali, o tempo fez-se lento Os minutos seguraram o fôlego E nós nos pusemos cômodos No calor um do outro Porém o tempo é vaidoso Teimoso, caprichoso E sem avisar, um dia voltou a soar nervoso. Nós já não estávamos lá Na nossa sala vazia, escutava-se apenas o relógio Tic. Tac. Tic. Tac
Como se ainda fôssemos nós
Ilustração
A última vez que falamos Como se ainda fôssemos nós Você perguntou se eu queria açúcar no café. Eu disse “como sempre”. Você riu. Mas demorou um segundo a mais do que costumava. A xícara chegou morna. O café, fraco. Seu costume de esquecer as medidas quando está distraída. Sua distração, naquele moemento, era eu. Falamos sobre o dia, o trânsito, uma série que nenhum de nós viu, mas fingimos interesse porque era mais fácil do que falar sobre o que estava se esvaziando no meio da sala. Você comentou que a vizinha trocou de planta na janela. Eu respondi que não tinha reparado. Mentira. Mas eu também andava cuidando menos dos detalhes. Teve um silêncio pequeno, não desses dramáticos, mas o tipo de silêncio que só dói pra quem presta atenção. E eu ainda prestava. Na hora de sair, você disse “até mais”. Eu disse que te amava. Palavras que sempre disseram pouco, mas naquele dia disseram tudo. Depois disso, falamos de novo, mas já era outra coisa. Outro idioma. Outras pessoas. Naquele café morno foi a última vez que tentamos, mesmo sem saber, conversar como se ainda fôssemos nós.
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